Ipatinga, 24 de Novembro de 2017
HISTÓRIA

MASSACRE DE IPATINGA 1963

A tragédia que marcou a história de uma pequena e próspera cidade



O pequeno caminhão, que foi usado para transportar os soldados e a metralhadora, foi destruído na manhã seguinte, em frente ao prédio onde hoje funciona a Faculdade Pitágoras, no Horto. Segundo algumas testemunhas, o caminhão teria ido buscar o almoço dos soldados que estavam escondidos onde é hoje o bairro Ferroviários.

O MASSACRE DE IPATINGA

O "Massacre de Ipatinga" foi um evento trágico acontecido no então distrito de Ipatinga, em Coronel Fabriciano, Minas Gerais, no dia 7 de outubro de 1963. Considerado por alguns estudiosos como uma prévia do que seria a exibição do poder militar que tomaria posse do governo brasileiro no ano seguinte, o fato consistiu em um atrito entre militares e funcionários da Usiminas, revoltados com as más condições de trabalho e a humilhação que sofriam ao serem revistados antes de entrar e sair da empresa para sua jornada de trabalho.

A situação de tensão culminou com a polícia militar responsável pela vigilância patrimonial da Usiminas, então sob ordens do governador mineiro Magalhães Pinto, que mais tarde participaria com afinco da ditadura, atirando, inclusive com metralhadoras, contra os funcionários desarmados que se manifestavam na portaria da empresa resultando oficialmente em 8 mortos (inclusive uma criança no colo de sua mãe) e 80 feridos.

Os números sempre foram contestados pelas testemunhas presentes que tiveram a verdadeira noção da tragédia ocorrida. Daniel Miranda Soares narra em seu artigo no Cadernos do CEAS n. 64 de nov/dez de 1979 "O Massacre de Ipatinga" que foram mais de 3 mil feridos e 33 teriam morrido até o dia seguinte em decorrência dos ferimentos. O jornal "Em Tempo" apresentou depoimentos de que seriam mais de 80 mortos. O padre Abdala Jorge do distrito de Timóteo, então parte da mesma cidade, afirma que, apesar de não poder precisar o número de mortos, contou pessoalmente 11 cadáveres no Hospital Nossa Senhora do Carmo (atual Hospital Unimed, em Coronel Fabriciano) para onde foram levadas as vítimas.

Na noite anterior ao dia 7 os trabalhadores sairam do turno da noite e foram para o alojamento que ficava no bairro Santa Mônica, logo após chegaram alguns policiais e começaram a atirar matando um dos moradores do alojamento. No dia 7 de manhã os trabalhadores saiam da usina e os vigilantes começaram a revistar suas marmitas, logo depois, um policial em cima de um caminhão e com uma metralhadora giratória começou a atirar por todos os lados.

O massacre foi fotografado por José Isabel Nascimento, fotógrafo amador, que foi um dos únicos a fotografar o crime. Porém, foi atingido por vários tiros da Polícia Militar durante esse episódio e faleceu dez dias depois na Casa de Saúde Santa Terezinha.

A Câmara Municipal de Ipatinga realizou em 2 de outubro de 2007 Audiência Pública sobre "A memória do incidente conhecido como Massacre de Ipatinga, ocorrido em 7 de outubro de 1963".

Em 2009, o Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania, IHG (em conjunto com o Movimento Anarquista Libertário e as Brigadas Populares), realizou um evento em memória aos trabalhadores assassinados no massacre, que levou o nome de "Velada Libertária do IHG".

VÍDEO: "Silêncio 63" - Fábio Nascimento

O FOTÓGRAFO

O evento foi registrado pelo fotógrafo amador José Isabel Nascimento. Porém, foi atingido por vários tiros durante esse episódio e faleceu dez dias depois enquanto estava internado.

VEJA a história e trajetória do fotógrafo, "JOSÉ ISABEL DO NASCIMENTO"

ELIANA MARTINS

Em Ipatinga, dois espaços públicos foram nomeados em homenagem às vítimas: O Centro Esportivo Cultural 7 de Outubro , no bairro Veneza que se refere ao dia, e o Hospital e Pronto Socorro Municipal Eliana Martins, que recebeu o nome da garotinha atingida e morta por um tiro no colo de sua mãe.

VEJA mais sobre a "ÂNGELA ELIANA MARTINS". Eliana Martins tinha três meses de idade, foi assassinada na manhã de 7 de outubro de 1963, quando estava nos braços da mãe Antonieta, a um quilômetro do portão de entrada da Usiminas.

Os PM’S acusados pelo Massacre de 1963

- José Maria Francisco

- Argentino Teodoro Tavares

- José Félix Gaspar

- Francisco Torres Dutra

- Florício Fornaciare

- Milton Souto da Silva

- Sebastião Cândido da Silva

- Sebastião Campelo de Oliveira

- José Gomes Vidal

- José Rodrigues

- João Clementino da Silva

- João Medeiros

- Moacir Gomes de Almeida

- Odeino Gomes

- Élcio Valeriano

- Joaquim Félix de Carvalho

- Osvaldo Ferraz de Castro

- Robson Zamprogno

- Jurandir Gomes de Carvalho

TESTEMUNHOS

A Comissão Nacional da Verdade, em parceria com o Fórum Memória e Verdade do Vale do Aço e com a participação da Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais, realizou audiência pública sobre os 50 anos do "Massacre de Ipatinga", dia 7 de outubro de 2013 no salão do Tribunal do Júri, no Fórum de Ipatinga.

Veja os testemunhos:

VÍDEO: Massacre de Ipatinga completa 50 anos

VÍDEO: CLAY VILLIAN. Clay Villian era dono do caminhão Opel que transportou tropas da PM para o portão da empresa. Foi de cima do caminhão dele que os policiais atiraram contra os trabalhadores. O caminhão era contratado pela siderúrgica exclusivamente para o transporte de tropas. O caminhão foi destruído pelos trabalhadores.

VÍDEO: HÉLIO MATEUS FERREIRA. Hélio sobreviveu ao massacre e tem até hoje alojada no corpo a bala que o atingiu há 50 anos. O tiro só não o matou pois foi amortecido pela carteira que ele levava no bolso, a qual guarda com todo o carinho.

VÍDEO: JOSÉ DEUSDETH CHAVES. José Deusdeth era líder sindical nos anos após o massacre, afirma que a origem do evento foi "a repressão da Usiminas em cima de todos os trabalhadore. O corpo de vigilantes, todo paramilitar, que prendia trabalhadores lá dentro, torturava e mandava para a polícia, onde eram torturados outra vez", relatou.

VÍDEO: ADIL ALBANO. Adil Albano foi sindicalista nos anos 60. "Minha mãe estava comigo no colo e correu, meu pai se escondeu numa manilha, mas nem todos os amigos dele tiveram a mesma sorte", afirmou.

VÍDEO: FRANCISCO FONSECA. Francisco afirmou ter sido perseguido após tentar assumir a direção do Sindicato dos trabalhadores da Siderúrgica. Ele testemunhou os tiros e ajudou a carregar corpos de vítimas. Fonseca conta que a revolta dos empregados começou por conta da segurança, que apreendia embalagens de leite que alguns funcionários reservavam do lanche para levar para casa.

VÍDEO: JOSÉ HORTA DE CARVALHO. O operário José Horta afirmou que "Eu acho que não morri aquele dia justamente para contar essa história diante de vocês. O massacre não foi só no dia 7. Era uma constante no nosso dia-a-dia. Viemos trabalhar durante o dia, sonhando à noite com nossa família longe, mas eles montaram um quartel aqui, num laboratório da ditadura, contrariando tudo o que desejavam os inconfidentes". Segundo ele, a PM atuava dentro da empresa, prendia e apreendia objetos dos trabalhadores.

VÍDEO: SEBASTIANA VIEIRA FILHA. Sebastiana era filha do segurança da Usiminas Antônio Elói Gandra, que ficou 3 dias escondido no interior da usina para fugir do massacre

VÍDEO: EDIVALDO FERNANDES. Edivaldo, historiador, considera a invasão do alojamento, na véspera do dia 07, tão grave quanto o massacre, devido a violência empregada pelos PMs e seguranças da Usiminas.

VÍDEO: CONCEIÇÃO MAIA RIBEIRO. Conceição que procura o irmão desde 1963. Ele trabalhava na Usiminas e desapareceu em outubro de 1963.

VÍDEO: JOSE DAS GRAÇAS OLIVEIRA. José das Graças, baleado, sobreviveu ao massacre. Com muita dificuldade, ele deu seu testemunho.

VÍDEO: ELIAS SILVINO DE SOUZA. Elias Silvino afirma que durante o massacre foi baleado no peito, mas sobreviveu.

VÍDEO: EDSON OLIVEIRA. Edson Oliveira, que faz parte da Associação dos Trabalhadores Anistiados de MG e do Fórum Memória e Verdade do Vale do Aço e foi autor da requisição para a realização da audiência. Édson declarou que "foi feito um pacto muito forte nessa cidade em que as autoridades oficiais não falam sobre o caso. Encomendaram 32 caixões, mas temos apenas 8 vítimas oficiais. Essa empresa foi construída com o dinheiro e o sangue desses trabalhadores e os responsáveis têm que vir aos tribunais, por isso escolhemos o fórum para a audiência. Aqui tem pessoas parentes de vítimas, pessoas que perderam seus pais aos 9, 10 anos e até hoje não encontraram a informação. É uma história para ser passada a limpo".

VÍDEO: ROSA CARDOSO. Rosa é coordenadora do Grupo de Trabalho Ditadura e Repressão aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical. Rosa Maria Cardoso da Cunha destaca que graves violações que lesam a humanidade configuram crimes imprescritíveis e devem ser apurados, como no caso de massacres, chacinas, ocultação de cadáveres e tortura. Ela explica que, embora tenha sido definido que os fatos ocorridos desde o golpe até o fim da ditadura teriam atenção, o estudo será mais extenso.“Nosso mandato é mais extenso e manda que consideremos prioritárias as apurações de graves violações, que são diferentes de violações de outros direitos à vida”, acrescentou. Rosa Maria, que é advogada, atuou na defesa da presidente Dilma Rousseff (PT) e de outros presos políticos à época da ditadura.


 

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