Ipatinga, 17 de Abril de 2021
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Alfaiate, um profissional em extinção

Hoje é dia de lembrar deste ofício considerado cada vez mais raro


Enquanto costurava uma calça, João Baptista falou sobre o ofício

Com precisão e paciência, eles transformam manualmente peças de tecidos em paletós e calças de fino acabamento. Figura rara na atualidade, os alfaiates já tiveram destaque na sociedade por produzirem peças exclusivas. Hoje é difícil encontrá-los por aí. Geralmente de cabelos grisalhos, eles se escondem atrás de máquinas e pilhas de tecidos sem glamour. Hoje é Dia do Alfaiate e para falar sobre a profissão em extinção, a reportagem do DIÁRIO DO AÇO conversou com João Baptista de Almeida, como forma de homenagear os demais.

Aos 74 anos de idade e aposentado, ele trabalha de segunda a sexta-feira, na rua Ouro Preto, nº 159-C, no Centro de Ipatinga. Neste sábado (8), ele completa 75 anos de idade e muita disposição. O ofício ele aprendeu ainda criança, na sua cidade natal, Barão de Cocais. “Comecei cedo. Aos 7 anos de idade eu chegava da escola e ia para uma alfaiataria que tinha perto de casa. Na época as condições eram precárias. Pegávamos grandes pedaços de carvão para usar naqueles ferros antigos e passar as roupas”, lembra João Baptista. O primeiro terno de João foi feito por ele mesmo. “Eu tinha 17 anos de idade e o confeccionei para a formatura do colégio. Fiquei muito chique”, comentou.

. Carreira

O alfaiate veio para Ipatinga em 1969 e começou a trabalhar na Consul. “Sete meses depois fui para a Usiminas onde trabalhei até 1991, quando me aposentei”, relembra. Mas com uma aposentadoria abaixo do necessário, ele resolveu voltar às origens. “Eu me aposentei ganhando pouco e voltei a costurar por necessidade e, claro, com paixão. Gosto muito do que faço”, ressaltou. Como alfaiate, João Baptista quando jovem, trabalhou em Belo Horizonte, onde costurava para pessoas importantes. “Já fiz terno onde trabalhava para o ex-prefeito da capital, Souza Lima”, recordou.

. Produção

Apesar de amar o ofício da costura, João Baptista revela que se trata de um trabalho árduo. “Tenho desgaste nas vistas e fico muito sentado. Isso ocasiona dores na coluna”, falou. Em relação à sua produção, João Baptista não sabe precisar quantas peças faz por mês. Mas afirma que a demanda é muito alta. Literalmente apertado de costura, ontem, João Baptista concedeu entrevista sob a condição de poder continuar costurando uma das quatro calças que tinha que entregar hoje.

Entre uma pergunta e outra, a visita de clientes: “Quanto é a bainha de calça?”; “Minha calça já ficou pronta?”. Essas são frases que ele ouve durante todo o dia. “Consigo, por exemplo, fazer uma calça em um dia se ficar por conta disso e nem fizer horário de almoço. Um terno (calça e paletó) fica pronto em uma semana”, detalhou.

. Concorrência

Perguntado sobre o motivo da extinção da profissão, João Baptista apontou duas razões: avanço das fábricas e o desinteresse pelas novas gerações. “Não dá pra competir com as fábricas que estão se aperfeiçoando. Muitas produzem peças de qualidade. Aí fica difícil”, argumentou. Pais de dois filhos, o alfaiate disse que nenhum deles se interessou pelo ofício. “Com falta de perspectivas, os novos não querem aprender a costurar. E os que existem estão morrendo aos poucos, junto com o conhecimento”, lamentou João Baptista.

. Qualidade

Apesar de reconhecer a qualidade das peças fabricadas por máquinas, João Baptista valoriza a costura manual. “Essas peças de fábrica são terríveis para consertar. As feitas à mão são superiores, primeiro pela medida personalizada, já costurei para uma pessoa com deficiência e crianças, por exemplo. Depois pelo cuidado com cada acabamento”, frisou o alfaiate que também trabalha com consertos e faz ternos para o público feminino.

Um terno feito por João Baptista custa em média R$ 400. Ele diz que antigamente alfaiate era melhor remunerado. Hoje, ele afirma que quer ficar por pelo menos mais cinco anos no ofício. “Pra mim a profissão ainda é boa”, garantiu, enquanto arrematava uma calça. Animado com a visita da reportagem, o alfaiate se despediu com um “até o ano que vem”.

Foto: Wôlmer Ezequiel

Publicado: Diário do Aço - 06/09/12

http://www.diariodoaco.com.br/noticias.aspx?cd=66319




 

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