Ipatinga, 17 de Janeiro de 2020
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“Agradeço pelo perdão”

Após matar criança a pauladas e cumprir pena, Fabiane Duda fica paralítica e ganha o perdão da avó da menina


Fabiane Duda afirma que, se não estivesse drogada, não teria matado a garota

Uma história com um desfecho que mistura tristeza, sentimento de justiça e muito drama. Assim poderia ser resumida a trajetória de Fabiane de Lourdes Moreira Duda, a Bia, 40 anos, que matou, em 2000, a pequena Carla Carolina Campos Lucas, que tinha 3 anos. Depois de ocupar páginas de jornais pela sua crueldade ao assassinar a filha da antiga namorada, Roberta da Costa Campos, Fabiane Duda é novamente notícia após de receber o perdão da avó da criança, Hélia Terezinha da Costa Campos.

O crime ocorreu em 29 de março de 2000, e chocou pela brutalidade e frieza. Fabiane Duda levou a criança de bicicleta, do bairro Iguaçu, em Ipatinga, onde morava com Roberta Campos, até o bairro Caladão, em Coronel Fabriciano, onde a agrediu a pauladas e a abandonou. Testemunhas levaram a garota ao Hospital Siderúrgica (São Camilo), mas ela não resistiu e morreu vítima de traumatismo crânio-encefálico. Após ser julgada e condenada, Fabiane Duda cumpriu nove anos de prisão em presídio feminino na Região Metropolitana de Belo horizonte. Em seguida, ela foi para Belo Horizonte onde viveu nas ruas.

Em 10 de novembro de 2012, Fabiane Duda sofreu uma agressão e teve traumatismo craniano e facial. Ela foi levada ao Hospital João XXIII onde ficou 56 dias inconsciente. Após recuperar a memória, ela disse ter família em Ipatinga. Chegando aqui, foi encaminhada para o Núcleo Assistencial e Eclético Maria da Cruz (Naemc), a Casa da Esperança, em janeiro deste ano. Fabiane Duda agora está em um dos leitos da entidade, paralítica. Mas está consciente e fala com clareza.

. Reencontro

A presidente do Naemc, Lúcia Valadão, informou que Duda havia passado pelo local em 1999, por ordem judicial, por causa de outro crime. “Ela ameaçou agredir um interno e não pude mantê-la aqui”, contou. Anos depois, ela voltou em função da paralisia. No último dia 29, Fabiane Duda se reencontrou com a avó de Carla Carolina Lucas, Hélia Terezinha Campos, que foi até o local para perdoá-la. Após sofrer a perda da neta que criava e chegar, inclusive, em pensar em vingança, Hélia Campos visitou Fabiane Duda em seu leito, para co0nfirmar que a perdoava. No dia seguinte, Roberta Campos também visitou a assassina de sua filha, mas conseguiu apenas lhe “desculpar”.

. Arrependimento

Em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO, Fabiane Duda, com voz rouca e emocionada, agradeceu pelo perdão e disse que se arrependeu do crime, afirmação dada em 2000, quando ela foi presa. “Eu estou me sentido mais leve. Estou muito bem. Feliz com a visita da Roberta e da Hélia. Antes eu ficava angustiada. Agradeço pelo perdão. Estou em paz”, declarou em meio às lágrimas.

Questionada sobre suas lembranças do crime, Fabiane Duda atribuiu à droga e ao ciúme a sua atitude cruel. “Quando matei a criança eu estava drogada e foi por ciúme da mãe. Eu usava muita droga. Sem droga eu não teria feito isso”, falou. Como divulgado em entrevista após o crime, Roberta Campos relatou que, antes do assassinato, havia rompido o relacionamento para se dedicar mais à filha e ao outro filho que tinha apenas um mês à época. “Eu ainda me lembro da menina, ela não gostava de mim. Era linda”, comentou Fabiane Duda.

. Mudança

Lúcia Valadão conta que o encontro foi possível depois que o neto de Hélia Campos, o ator Luís Yuner, em visita à Casa da Esperança, ficou sabendo da internação de Fabiane Duda. “Ele quis trazer a avó para ela se sentir bem, mesmo depois de dizer que já tinha perdoado a Fabiane. O momento provocou muita comoção em todos”, relatou a presidente do Naemc. Após o reencontro emocionado, o comportamento de Fabiane Duda mudou. “Depois das duas visitas, ela tem demonstrado mais calma, serenidade e chora muito, porém sabe explicar o motivo. O perdão fez muito bem para ela”, frisou Lúcia Valadão.

. “Estou com gosto da vitória, porque Deus fez Justiça”

Avó de menina assassinada fala do reencontro com autora do crime e admite que pensou em se vingar

O assassinato de Carla Carolina Campos tirou a paz e alegria da avó materna, Hélia Campos. Após o crime, ela chorava todos os dias pela neta que havia criado. “Era uma dor insuportável”, lembra em entrevista ao DIÁRIO DO AÇO uma semana depois de ter perdoado pessoalmente Fabiane Duda. Sentada no quintal da casa que possui em Ipatinga, Hélia Campos, que atualmente mora em Imbé de Minas, relata com serenidade e emoção que perdoou Fabiane Duda em meados de 2006. Naquela época, ela sonhou com a neta. Antes disso, Hélia Campos tinha vários projetos arquitetados para se vingar de Fabiane Duda.

No sonho, a pequena Carla Carolina disse à avó que Fabiane Duda estava solta e pediu para ela perdoar a sua assassina. “Minha neta pediu que eu perdoasse a Fabiane e que não fizesse justiça. Eu queria fazer justiça com as próprias mãos. Mas ela afirmou no sonho que estava bem, que era para eu ficar bem e que Bia ia sofrer. Para nossa surpresa, tudo que ela disse que ia acontecer, aconteceu. Agora Bia está entrevada em uma cama”, declarou Hélia Campos.

Mesmo depois de seguir os conselhos dados pela neta no sonho, Hélia Campos fez questão de ver Fabiane pessoalmente. “Ela pediu perdão e eu disse que já a havia perdoado. Depois do sonho, me tranquilizei e fiquei esperando que Deus fizesse justiça e ele fez. Quero dizer, para todo mundo que teve uma tragédia na vida como essa, que tenha fé, porque Deus faz justiça”, enfatizou Hélia Campos.

. A mãe

Sobre a visita de Roberta Campos, que atualmente mora em Ipatinga de acordo com sua mãe, Hélia Campos relatou que ela ainda não perdoa completamente Fabiane Duda. “Minha filha esteve lá e disse que Bia lhe pediu perdão. Roberta disse que a desculpava e ainda estava muito magoada. E aconselhou Duda a pedir perdão a Deus para ter paz”, revelou Hélia Campos.

De acordo com relato da avó, na época do assassinato Roberta Campos estava com 30 dias de resguardo e teve uma depressão pós-parto. “Ela estava triste e só piorou também. Hoje ela está melhor”, observou. Quatro anos depois do crime, Roberta teve uma filha a quem deu o mesmo nome, Carla Carolina. Hoje a criança é criada por Hélia. “Ela teve outra filha e, tentando aplacar minha tristeza, colocou o mesmo nome de Carla Carolina. Ela é linda, adoro, cuido, mas um neto não substitui o outro”, pontuou.

. Retaliação

Até o sonho transformador com a neta, a sede de vingança dominava os pensamentos de Hélia Campos. Ela recorda que fez vários planos de pagar na mesma moeda a covardia feita à menina. “Eu vigiava os passos dela, porque já tinha quem a pegasse quando saísse da cadeia para levá-la a um lugar, onde eu ia torturá-la bastante. Na época do crime, ela disse em entrevista que não queria matar a menina e, sim, dar pancada na cabeça para deixá-la retardada a ponto de não saber quem era sua família e assim alguém pegá-la. Então, eu quis bater muito na cabeça dela”, confidenciou.

Outra estratégia que Hélia Campos cogitou foi de cometer algum crime na cidade onde Fabiane cumpria pena, para ficar presa junto dela. “Eu pensava coisas absurdas. Tinha muito ódio. Sentia o gosto de sangue na minha boca”, salientou. Com as mãos limpas e a mente tranquila, a avó materna afirma: “Não foi preciso, com ela aconteceu o contrário. Ficou sem poder andar e está com a cabeça boa. Se perdesse a mente, como saberia que estava pagando pelo crime? Graças a Deus me controlei. Não me sinto feliz em ver um ser humano naquele estado, mas com Deus por ter feito justiça”.

Para aqueles que passaram por situações semelhantes e por isso pensam em vingança, Hélia Campos garante que não vale a pena. “Fazer com as próprias mãos é bobagem, o gosto da vingança é momentâneo. Estou com gosto da vitória, não por ver a infelicidade dela, mas porque Deus fez justiça. Quando se fala em justiça é muito pouco matar criança e ficar na cadeia, independentemente do tempo. Justiça divina existe. Tenho as minhas mãos limpas e estou muito feliz”, concluiu Hélia Campos.

Repórter : Polliane Torres

Fonte: http://www.diariodoaco.com.br/noticias.aspx?cd=73439




 

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