Ipatinga, 25 de Fevereiro de 2021
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Quem é o ipatinguense que achou US$ 20 mil dólares nos EUA e quis devolvê-los ao dono

Há onze meses, Carlos Valadares tenta encontrar o proprietário do dinheiro encontrados em um lixão


O ipatinguense Carlos Valadares mostra o livro que encontrou num lixão nos EUA. O dinheiro estava num buraco recortado no meio das páginas

Quando o mineiro Carlos Valadares, de 55 anos, abriu um livro velho jogado no lixão da Avenida Great Plain, teve a sensação de esbarrar num baú deixado por piratas. As folhas, que haviam sido coladas cuidadosamente umas às outras e recortadas para formar um buraco no centro, guardavam um tesouro. Mais de US$ 20 mil, em notas de US$ 100 e US$ 50. O dinheiro não seria capaz de transformá-lo em milionário, mas, para Valadares, que imigrou de Ipatinga para os Estados Unidos há 34 anos, a quantia resolveria vários problemas financeiros. Resolveria, porque Valadares não se apossou do dinheiro. Há onze meses, ele procura o dono do livro e do tesouro guardado em seu interior. Encontrá-lo tem se mostrado mais difícil do que achar US$ 20 mil num lixão.

Valadares mora com a família – sua mulher, dois filhos, de 22 e 16 anos, um neto, de 5, e o genro – na cidade de Marlborough, a 50 quilômetros de Boston. Na década de 1980, com 20 anos, cumpriu o roteiro de milhares de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos. Trabalhou como taxista, entregador de jornal, lavador de pratos, soldador e gerente de restaurante. Em 1985, conseguiu o green card, visto de residência permanente que lhe permite viver e trabalhar no país. Hoje, Valadares se divide entre duas ocupações. No verão, aproveita o tempo bom para liderar uma equipe de pintores de casas. Durante o inverno, trabalha com a mulher fazendo faxinas na cidade vizinha de Wellesley. Ganha US$ 6 mil por mês (cerca de R$ 12 mil). Foi como faxineiro que Valadares encontrou o dinheiro, em outubro do ano passado.

Uma de suas atribuições é levar o lixo para a central de despejo e reciclagem da cidade – um local bastante diferente dos lixões brasileiros. O lugar é limpo e ordenado. Há um espaço para descartar resíduos orgânicos, outro totalmente diferente para abrigar material reciclável e outros em que é possível deixar objetos em bom estado, como móveis ou aparelhos eletrônicos. A cada visita, Valadares não deixa de dar uma olhada num canto especial: uma espécie de armário, com portas de correr, com livros para ser doados. Sempre procura obras para a filha Jéssica, estudante do último ano de arquitetura, e revistas sobre a natureza e vida selvagem, uma de suas leituras preferidas. Naquele 12 de outubro, em meio a uma coleção para crianças, encontrou um livro grosso que chamou sua atenção. Pegou o volume, folheou até a página 15, e aconteceu: deparou com as notas, acomodadas no buraco no interior do livro.

Valadares diz que, em nenhum momento, pensou em ficar com o dinheiro sem antes procurar pelo dono. “Foi um descuido da pessoa”, afirma. “Não podia pegar o que não era meu, não foi isso que aprendi com minha família.” Valadares diz ter ido à central de despejo várias vezes durante o mês seguinte à procura do dono, ou de seus herdeiros. Ele imagina que um idoso possa ter deixado o dinheiro entre as páginas sem avisar a família, que se desfez do livro depois de sua morte, sem saber o que continha. Valadares decidiu colocar um anúncio no jornal da cidade. Para não correr o risco de entregar o tesouro a um malandro, estabeleceu algumas regras. A pessoa teria de dizer o título do livro, a quantia exata de dinheiro que estava guardada e descrever outros dois objetos deixados com as notas. Enquanto a notícia do tesouro perdido corria – foi divulgada em jornais locais e redes de televisão, como as grandes Fox e CNN –, Valadares não resistiu a fazer um empréstimo. Diz ter usado cerca de US$ 5 mil para vir ao Brasil. Afirma que restituirá o valor assim que o dono aparecer. Caso ele apareça.

Até agora, sua busca tem sido infrutífera, mas não pela falta de candidatos a donos do livro. Quase 190 pessoas escreveram para Valadares no endereço de e-mail que ele criou para receber informações. Nove tentaram se passar pelo verdadeiro dono e não acertaram o título do livro. Outras três nem tentaram adivinhar: exigiram que Valadares devolvesse o dinheiro delas, sem discussão. Ele não cedeu diante da ausência de provas. A maior surpresa veio das mensagens – centenas delas – para lhe dar parabéns pela atitude. “Algumas diziam que eu era um ótimo imigrante, alguém que, em vez de tirar o dinheiro dos americanos, queria devolvê-lo...”, diz Valadares. Para a jornalista Cathy Brauner, editora do Wellesley Townsman, jornal local que noticiou a descoberta, sua atitude pode amolecer corações. “Espero que as pessoas que saibam dessa história se tornem menos pessimistas sobre a natureza humana”, diz Cathy. Valadares recebeu, via e-mail, dois pedidos de casamento, prontamente ignorados por ele – “muito bem casado” com a também mineira Elizabeth há 30 anos.

Como toda boa história de tesouro, essa também precisa ter um fim. Por isso, Valadares estabeleceu o prazo-limite de 8 de maio, exatamente seis meses depois de comunicar a descoberta aos jornais americanos, para se declarar dono da quantia. Nos jornais do dia 9 de maio de 2013, ele divulgou o nome do livro e os dois objetos encontrados com o dinheiro, encerrando o mistério. Valadares ficou com 90% da quantia para pagar uma parte da dívida de quase US$ 30 mil com a universidade onde a filha estuda e outras contas pendentes. Os 10% restantes foram doados para uma ONG que ele fundou em 1996, a Brazilian Children’s Foundation, registrada em Framingham, também perto de Boston. Por meio dela, ele arrecada dinheiro entre cidadãos americanos para ajudar instituições que cuidam de crianças carentes no Brasil. “A primeira geladeira aqui da casa foi ele quem comprou”, diz a irmã Wanderlita Meira de Araújo, presidente da Fundação Casa da Menina Santa Bernadete, que cuida de meninas abandonadas em Governador Valadares, Minas Gerais. A jornalista brasileira Miryam Wiley, radicada nos Estados Unidos, pretende escrever um livro sobre a história de Valadares, e como sua generosidade parece ter sido recompensada. “Ele está sempre ajudando todo mundo”, diz Miryam. Valadares diz seguir um lema de vida que aprendeu quando pequeno: “O bem que você faz aos outros um dia volta”. Nesse caso, na forma de US$ 20 mil, em espécie.

. Cargo de vereador nos EUA

Filho dos pioneiros Manoel Valadares e Benedita Matilde Andrade Valadares "Dona Tildinha", Carlos Valadares nasceu em Ipatinga no dia 23 de março de 1959, casado com Elizabeth Valadares e tem dois filhos: Jessica e Jullian Valdares.

Buscando o apoio de sua comunidade, Carlos concorrerá à Zona nº 5, no município de Marlborough, onde ele reside e se concentra um considerável número de imigrantes de língua portuguesa. As eleições locais acontecerão em 5 de novembro desse ano. Ele tem o apoio do Senador Jamie Eldridge.

A história de Carlos é similar a de inúmeros imigrantes que, no início da década de 80, chegaram aos Estados Unidos em busca de melhores oportunidades profissionais. Após trabalhar duro, constituir família, na busca do sonho americano, ele decidiu que agora é o momento de devolver à comunidade o apoio recebido.




 

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