Ipatinga, 17 de Agosto de 2022
PERSONAGENS

GERALDO ASSUNÇÃO NETO

"Adeus, MALUCO: A conversão do ex-cover de Raul Seixas"


Geraldo Neto fã incondicional de Raul Seixas, "Admirava me vestir como ele, de maneira louca, tremendamente extravagante".

IPATINGA - "Meu nome é Geraldo Assunção Neto, o Geraldo Neto conhecido por tantos mas que hoje, pela graça de Deus, é um homem distante diferente. Nasci em Salto Grande (MG), então município de Braúnas, dia 8 de outubro de 1953. Filho de Leonel Rodrigues de Assunção e Maria Ferreira Assunção, ele um bom marceneiro, que trabalhou na construção da usina hidrelétrica local, e ela uma excelente costureira. Minha mãe teve 18 filhos, 12 homens e 6 mulheres. No entanto, devido as precárias condições de asssistência hospitalar, sete deles morreram. Algumas eram crianças que na época, nascidas com parteiras e não houve esforço capaz de assegurar-lhes à vida. Sou o terceiro filho da família, o mais velho entre os homens.

A VINDA PARA IPATINGA

Era o ano de 1956, eu tinha ainda três anos de idade quando nós mudamos para Ipatinga. Meu pai veio em buscas de melhores oportunidades de emprego e de fato arranjou um bom lugar na Usina Siderúrgica, onde acabou se aposentando. A Usiminas começava a ser edificada. Moramos primeiramente no chamado Acampamento da Usiminas, que existia antes no lugar onde hoje há o populoso bairro Ideal, Dali nós transferimos para a Vila Ipanema, extamente ainda os meus pais residem hoje, depois de tantas jornadas. Desde pequenininho já me interessava por músicas. Com algumas crianças do bairro, cheguei a formar um conjunto. A bateria usava latas de conserva, pratos, cabos de vassouras. Uma madeira improvisada com cordas de nylon se transformava em uma guitarra, Sempre nós apresentávamos em aniversários de crianças e em fundos de quintal.

AS DIFICULDADES

As condições financeiras de minha família nunca foram das melhores e tive uma infância de permanente ocupação. Para conseguir estudar fui padeiro, jardineiro, engraxate, lavador de carros nos bairros Cariru, Castelo e Horto. Mas nunca abandonando a música. Aproveitava as oportunidades nos programas de calouros no antigo Cine Ipanema, participando também dos demais movimentos culturais da cidade e redondezas.

Em 1968, ao ingressar no Senai através da Usiminas, recebi aulas de Educação Física, descobrindo então outra aptidão ainda oculta: o contorcionismo. Aliando a música, consegui alcançar maior notoriedade. Participaei de várias gincanas, entre educandários na época. Eram as famosas: "Meu Colégio É o Maior" e "Domingo É dia de Show".

Após concluir o Senai fui trabalhar na Usiminas, onde permaneci de 1970 a 1973. Fui para Belo Horizonte, onde prestei serviços à Tornotécnica de 73 a 75. Decidindo retornar a Ipatinga, ingressei me na Cenibra, lá permanecendo de 76 a 79. Por último, fui funcionário também da Acesita, de 79 a 86, até decidir me dedicar totalmente a música.

O SUCESSO

Alcancei sucesso significativo como imitador de Raul Seixas, mas antes tive momentos importantes nos festivais de música da região e interior de Minas Gerais. Mantive contatos com artistas famosos como Eike Maravilha, Vinícius Cantuária, Eduardo Dusek, Gilberto Gil, Titãs, Lobão, Holandês Voador, etc.

Quando Raul Seixas esteve se apresentando por aqui, em 1983, ele próprio me deu a oportunidade de participar do show. Lembro-me de que ele estava tão drogado e o público esperava tanto dele que minha apresentação acabou sendo mais interessante. Naturalmente, não que o meu talento o suplantasse, mas suas condições não eram mesmo das melhores. Antes da apresentação, tive oportunidade de mostrar-lhe no camarim meu álbum de fotografias, onde aparecia vestido de sósia, e ele o autografou com a dedicatória que ainda pode ler nele: "Ao amigo Beleza". Eu lhe mostrara também um certificado que me credenciava como melhor cantor regional numa pesquisa realizada em 1980. No palco, muito dogado ele arrebentou as cordas da guitarra e o show foi um lamentável fiasco.

De qualquer forma, continuava seu fã incondicional. Admirava me vestir como ele, de maneira louca, tremendamente extravagante. Quando gravei um compacto (3.000 cópias em 1985), uma das faixas foi em sua homenagem, com o título de "Rock no Ar". A outra faixa, "João Ninguém", obteve boa colocação no último dos tradicionais festivais de música popular em Ipatinga.

Fui usuário de maconha desde os 20 anos. Totalmente dependente, sem que meus pais soubessem. Aliás, como acontece na maioria das famílias, eles são sempre os últimos a saber. Cheguei a experimentar cocaína, mas felizmente não me viciei nela.

A loucura no palco me fascinava, mas, ao descer dele, a realidade era outra, muito dura. Tornava-me um marginalizado, com fama de doidão, receoso da polícia, sem liberdade interior.

VÍDEO: Raul Seixas - MALUCO BELEZA - Ao Vivo na Praia do Gonzaga - em Santos-SP - 1982

AS DROGAS

Com dinheiro do trabalho, era mecânico com aprendizado também de eletricista e ajustador, podia comprar toda droga que quisesse. Só não me drogava no trabalho, mas meus shows eram movidos a base de aluicinação. Os conflitos existenciais foram se agravando e acabei em tratamento psiquiátrico com o conhecido Dr. Zé Moll. Sem êxito, busquei uma saída na acupuntura, também em vão.

Enfim, em meio a todo este dilema, o ano de 1989 foi decisivo e marcante. Em companhia de dois colegas, juntei-me a um estranho e fomos buscar maconha num garimpo de ouro em Itabira. A droga era de fato desta pessoa, que nunca soube como se chamava e agora tomei conhecimento de que morreu em troca de tiros com a polícia. O carro era meu, um Fiat, e a polícia Civil nos flagrou com a erva. Tiraram o cabo da vela do veículo e, enquanto tentava ligá-lo, nos detiveram. O estranho que nos acompanhava fugiu em meio a um tiroteio. Nem mesmo sabíamos que ele estava armado, só queríamos usar a maconha. Eles haviam posto gasolina no meu carro e lhes dei carona.

Cheguei a ganhar um baseado e coloquei debaixo do tapete. O sujeito fugiu e as sacolas com a maconha ficaram no veículo. Eu e os outros dois fomos presos e espancados para confessar. Diante da violência, fui obrigado a assumir que a droga era nossa, sendo autuado em flagrante como traficante.

O SOFRIMENTO

Por 53 dias permaneci preso. Foram dias intermináveis. Ali um bandido me disse na cela: "Cuidado. Se você não souber tirar cadeia, a cadeia tira você". Foi um período terrível. Pareciam anos. Vi presos sendo torturados altas horas da noite, era um quadro de insegurança permanente. Por influência de alguns amigos obtive então a transferência para a cadeia de Ipatinga, onde ganhei o benefício da prisão-albergue. No entanto, este período de meia liberdade, que durou três meses, para mim também foi terrível, já que tive que me expor a vergonha de sair da cela diariamente diante de uma multidão que se aglomerava para tirar carteiras de identidade nas imediações da delegacia. Precisava comparecer ao Juíz para tirar alvará para cantar e, na rua, acabava me drogando. Terminei preso fumando um "baseado" na Avenida Macapá, dentro de uma Brasília de minha irmã. Fui algemado, perdendo então aquela suposta regalia. Na prisão também tinha acesso a drogas. Costumava-se colocar um pano para queimar, de modo que o cheiro de maconha fosse disfarçado.

"FUI RESGATADO POR JESUS CRISTO"

Ali, naquela situação de completa impotência para abandonar o vício, recebi a visita de Wellington Silva, da Missão Resgate, que se propôs a ajudar me a escapar das drogas. Ainda houve um companheiro de cela (que movido pelo diabo) tentando me demover da idéia. "Não vai prá Missao não. Cumprindo o resto da pena, você tira muito mais vantagem. Lá você vai ficar Carêta...".

Resolvi aceitar o convite e foi aasim que fui transformado por Jesus Cristo. Ali conheci o evangelho e o poder de Deus. Lembro-me de que um dia me ajoelhei, me humilhei diante do senhor e ele me libertou. Aos prantos, movido pelo Espírito Santo, em meio a uma oração, senti um poder que jamais havia experimentado. Deus fez para mim o que a medicina havia tentado, sem qualquer sucesso.

Cheguei a fumar quase dois maços de cigarros por dia. Além de drogas, usei bebidas alcóolicas desde adolescência. Hoje, estou liberto de tudo. Tornei-me Relações Públicas da Missão Resgate e por mais de um ano auxiliei diretamente a entidade, o que ainda faço hoje, de modo mais indireto, transferindo-lhes saldos de arrecadações de shows musicais evangélicos. Moro agora no Centro de Timóteo (Rua Inhapim, 137). Vivo imensamente feliz com minha esposa, Aparecida Segunda Assis Assunção, professora de pré-escolar da Escola Municipal Jardim da Criança. Fomos abençoados com duas meninas, a Priscíla e a Amanda, mais a jovem Joelma, do primeiro casamento de minha esposa e que também amo como pai. Trabalho com placas, faixas e silk-screen.

Eventualmente também sou reformador de móveis. Sou membro da Primeira Igreja Batista Nacional de Timóteo. Eu e alguns colegas músicos mantemos a Geraldo Neto e Banda. Temos composições próprias, exclusivamente evangélicas.

QUEM FOI RAUL SEIXAS

De Raul Seixas, posso dizer hoje: foi um grande intérprete e um grande compositor. Pena que não tenha utilizado todo seu talento para louvar ao Senhor, perdendo a vida de modo tão trágico, numa overdose. Raul cavou sua sepultura extamente como descreveu na música que o consagrou: "Eu não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada e cheia de dentes, esperando a morte chegar"...E morreu assim, sentado num apartamento abandonado pela família, sem nunguém. Outro tolo...

Dentro de uma igreja, ainda houve um dono de boate me oferecendo uma grande bolada para faturar com sua morte. Artimanha malígna, creio. Agora sou eu mesmo, graças a Deus.

Entrevista publicada no jornal A Tribuna no dia 20 de maio de 1997.

VÍDEO: Raul seixas- Metamorfose ambulante




 

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