Ipatinga, 15 de Dezembro de 2018
PERSONAGENS

JURUCEIR SANTOS "Juru"

O POLICIAL que ficou em Ipatinga pelo esporte


Juru atualmente faz parte do Tribunal Desportivo da Liga de Ipatinga. Um dos jogos que mais marcou Juru (C) foi um amistoso da Usipa contra um time da Usiminas, que contratou Garrincha (segundo da direita para a esquerda) e Belini (terceiro da esquerda pa

IPATINGA (MG) - Juruceir Santos nasceu em São Luiz/MA no dia 13 de fevereiro de 1938. Ingressou na Polícia Militar de Minas Gerais (Belo Horizonte) ao completar dezoito anos. Veio para Ipatinga em janeiro de 1964, onde se casou com Maria Edna Borges Santos. Pai de dois filhos: Karina e Leonardo.

BIOGRAFIA

O campeonato de futebol amador de Ipatinga tem uma das melhores arbitragens do estado, com organização e estrutura, mas nem sempre foi assim. No começo da Liga, árbitros sofriam. Um deles foi Juruceir Santos, o "Juru", militar que veio para o Vale do Aço em 1964, após o Massacre de Ipatinga, em 7 de outubro de 1963. O personagem dessa semana contou ao Jornal Vale do Aço boas histórias do seu tempo de juiz.

Juru nasceu no dia 13 de fevereiro de 1938. Quando chegou ao Vale do Aço, em 12 de janeiro de 1964, imaginava que ficaria aqui apenas sessenta dias. Cinco décadas depois, tornou-se empresário no Vale do Aço, com a "Juru Segurança", no centro de Ipatinga. Sua vinda para a região se deve a uma página triste de nossa história: o Massacre de Sete de Outubro. Quando chegou, encontrou no esporte uma paixão, e um motivo para ficar na cidade.

JVA – Você chegou ao Vale do Aço em 1964. Qual o motivo da transferência de Belo Horizonte para Ipatinga?

Juru – Eu era de Belo Horizonte, militar. Na época da revolução de Sete de Outubro, conhecido na região como o Massacre de Sete de Outubro, nós viemos para substituir a equipe de policiais que se encontrava aqui na época. Viemos apenas para apaziguar a situação. Com o problema do tiroteio, a população não confiava mais na polícia. Então mandaram um pessoal da capital. De lá, viemos 42 pessoas, entre sargentos, cabos e soldados, como eu. Uma equipe de Valadares também veio, com o então Tenente Xavier, que hoje é Coronel. Viemos fazer o policiamento. Então comecei a me interessar pelo esporte. Em BH eu não tinha tempo. Só trabalho, muito trabalho. E acabou que eu, que vim para ficar apenas 60 dias, estou aqui até hoje.

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JVA – E qual o motivo de ter ficado até hoje?

Juru – Um deles foi o esporte. Encantei-me com o esporte aqui. Em Belo Horizonte não tínhamos tempo. Tínhamos um time no contingente, e jogávamos. Começamos no salão, depois fomos pro bretão. Tínhamos um campo aqui no Contingente, e comecei a me entrosar. Comecei então a jogar em um time da região, de nome Botafoguinho. Joguei também no Independente. Depois, parei de jogar, já estava velho e não aguentava correr tanto. Deixei a bola, mas não deixei o campo. Comecei a apitar no futebol amador. Eu gostei, e apitei por uns dez anos. Modéstia à parte, eu era considerado um dos melhores árbitros da região. Depois desta carreira, parei de apitar e fui ser diretor de árbitro. Fui diretor por várias gestões. Para ser sincero, comecei na Liga desde quando ela era Liga Barbante. Nunca deixei de fazer parte. Fui árbitro, diretor de árbitros, e hoje sou membro do Tribunal de Justiça Desportiva da Liga. Já fui presidente e hoje sou juiz auditor.

JVA - Você foi jogador, e depois se tornou árbitro. Em que isso te ajudou a arbitrar as partidas?

Juru – Talvez eu tenha obtido êxito como árbitro por conhecer o lado do jogador. Eu sabia as malandragens, e me saia bem nas interpretações. Acho que ser policial também ajudou. Eles tinham mais respeito por mim. Não era o melhor árbitro, tinha árbitro melhor do que eu, mas eu tinha respeito, e isso me ajudava muito, me tornava um bom árbitro. Mas estava entre os melhores.

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JVA – Qual a principal dificuldade de um árbitro do futebol amador?

Juru – Na minha época, os campos não tinham alambrado, eram sem grama, de terra, a torcida te ameaçava, qualquer coisa invadia. Já recebi ofertas de suborno, mas nunca aceitei.

JVA – Qual o pior tipo de jogador?

Juru - O que tenta cavar faltas, pênaltis. Ele joga o árbitro contra a torcida. Torcedor é paixão. Se o jogador se joga, e a gente não marca, somos ladrões, safados. Você tem que entender a malandragem do jogador, eu entendo porque eu vivi aquilo. É muito difícil ser árbitro.

JVA – Sempre pergunto para os jogadores quais foram os jogos mais marcantes. Para você, qual foi o jogo que você apitou que mais te marcou?

Juru – Tive vários jogos marcantes. Mas três se destacam. Apitei uma vez um amistoso do time da Tenenge, uma empresa da Usiminas, e eles contrataram dois jogadores campeões do mundo: o Garrincha e o Belini. Eles iam fazer um amistoso contra a Usipa, e eu fui escolhido para apitar, no estádio Amaro Lanari. Este jogo me marcou demais. A segunda foi um jogo entre Usipa e Palmeiras, pelo Ipatinguense. Tinha um atleta, que por sinal é meu amigo hoje. Ele tinha o nome de Grego. Ele era um bom jogador, mas meio violento. Tinha a mania de enfrentar árbitro, e todo mundo tinha medo dele. No jogo eu o adverti uma primeira vez, e na segunda eu o expulsei. Quando expulsavam ele, ele sempre partia pra cima do árbitro. E eu tinha medo dele mesmo. Quando o expulsei, ele veio correndo para cima de mim. Para me defender, eu falei com ele o seguinte. ‘Se você tocar a mão em mim, vai acontecer alguma coisa com você’. Quando o ameacei, ele parou e disse que eu estava o ameaçando. Quando ele disse, eu falei: ‘Você tem prova?’. Como eu tinha falado só com ele, ele não tinha provas, e se eu não falo isso, ele me batia. O estádio estava cheio, e eu era Sargento. Já pensou se eu apanho lá? Ia ficar feio no meu Batalhão, no meu comando. Isso me salvou. Até hoje ele lembra e brinca com isso. O último foi um jogo em São João do Oriente, do time da casa contra um adversário que não estou conseguindo lembrar o nome. Era uma decisão. Eu marquei um pênalti contra o time da casa. O time deles era muito bom. Com a marcação, eles partiram pra cima da arbitragem. Chegaram com os dois pés no peito do meu bandeira. Não satisfeitos, partiram para cima de mim. Expulsei o jogador, um tal de Beraldo, centro avante do time. Ele pegou uma suspensão de dois anos, eu contornei a situação e fomos até o final do jogo.

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JVA - Você é a favor do uso da tecnologia na arbitragem? E acha que com as mudanças, a qualidade dos árbitros melhoraria?

Juru – Não vai melhorar. Eles são seres humanos, e vão continuar errando. Sou a favor do chip na bola. Se entrou, um sinal avisa e pronto. Continua o jogo. Não se pode dizer que o cara é mal intencionado, os lances são rápidos demais. Mas começar a usar replay para impedimentos, faltas e outros lances, isso não. Tiraria a graça do esporte. Isso que é o gostoso, o interessante. Se perder estas dúvidas, o esporte perde a graça.

Fonte: http://www.jornalvaledoaco.com.br

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