Ipatinga, 11 de Dezembro de 2018
PERSONAGENS

SÉRGIO ARAÚJO

O ex-jogador, que fez história no Galo, conta sobre sua carreira, como vê o futebol hoje e revela a falta de oportunidades para ex-atletas nos grandes de BH


Atlético-MG, campeão mineiro de 1985. Da esquerda para a direita, em pé: João Leite, Batista, Nelinho, Elzo, João Pedro e João Luis. Agachados: Sérgio Araújo, Paulo Isidoro, Tita, Marcos Vinícius e Edivaldo. O veloz ponta direita em ação

Por muito tempo, Timóteo só era reconhecida no cenário nacional por causa da sua empresa, a Acesita, hoje Aperam. Claro que isso não era verdade, mas a brincadeira era repetida entre os aficionados por futebol, que zoavam o fato da cidade não ter jogadores de destaque, numa equipe profissional. A cisma durou até meados da década de 80, quando o veloz Sérgio Araújo foi elevado para o time profissional do Galo, no empate em 1 a 1 contra o Tupi, no Mineiro de 81. Neste jogo, começaria a história de um dos principais representantes de Timóteo no futebol nacional, ou Acesita, já que a confusão entre o nome da cidade com o nome da empresa era constante, antes mais do que atualmente. O ponta direita, veloz, que cruzava com precisão e fazia 100m em 10s81, hoje faz parte da história do Galo. Conquistou o Campeonato Mineiro sete vezes, três em sequência, duas Taça Minas Gerais e uma Copa Conmebol, além de um Pré Olímpico pela Seleção Brasileira. Este é o currículo resumido do Personagem da Semana do Jornal Vale do Aço.

Sérgio Araújo começou nas categorias de base do Atlético Mineiro em 1979, quando foi descoberto em um jogo do time do Galo em Timóteo. No começo, o ponta esquerda se destacava, mas, assim como era rápido em campo, era rápido para sumir dos treinamentos. Quando os diretores procuravam, descobriam que ele já estava novamente em Timóteo, na casa dos pais, matando saudades. Hoje, sem seu Francisco Antônio de Melo, falecido, apenas dona Maria Perpétua continua na casa do Bairro Quitandinha, onde Sérgio Araújo guarda as camisas, os troféus, as recordações da carreira de atleta. Ele pendurou as chuteiras com 37 anos, em um clube de pouca expressão no Espírito Santo, mas suas arrancadas, seus dribles velozes e os gols do ponta direita endiabrado ficarão sempre imortalizados na memória do torcedor atleticano, principalmente os que acompanharam o timaço alvinegro na década de 80. No próximo domingo (02), Sérgio estará novamente no Vale do Aço. Deve dar um pulo na casa de sua mãe, matar a saudade, e depois se apresentar no Clube Ipê, no bairro Horto, junto com uma legião de estrelas que desfilaram pelo Atlético e Cruzeiro no passado.

JVA - Como foi o seu começo no futebol? Chegou a treinar em alguma equipe aqui no Vale do Aço?

Sérgio Araújo – Eu comecei no futebol no Vale do Aço, mais precisamente no time do Vila Nova de Acesita. Joguei lá até os 13 anos. Cresci em Timóteo, no Bairro Quitandinha. Só saí de lá com 14 anos, direto para a base do Galo.

JVA - Como o Galo te descobriu?

Sérgio Araújo – O time principal do Atlético veio a Timóteo, em 1978, para fazer um amistoso contra a Seleção do Clube Casa de Campo. Eu joguei antes do jogo principal, em um amistoso entre o time da escolinha do Vila Nova de Acesita e a escolinha do Casa de Campo. A comissão técnica do Galo gostou do meu futebol e me levaram para BH.

JVA - Você foi lançado profissionalmente no Galo em um time considerado um dos melhores da história. Era mais fácil jogar?

Sérgio Araújo – Na época em que subi para o time profissional do Galo, em 81, tínhamos um baita time. O ataque era eu, Reinaldo e Éder; no meio, Paulo Isidoro e Heleno; no gol João Leite; e tínhamos também o Edvaldo, de Ipatinga. Era um time muito bom. Quando o Procópio Cardozo me buscou na base e me colocou no profissional, em me encaixei muito bem. Os times antigamente tinham uma base bem sólida, uma estrutura, um entrosamento entre os jogadores, trocando apenas uma ou duas peças. A base do time permanecia por cinco, seis anos. Hoje não, vemos todo ano, ao final da temporada, ou até mesmo na janela de transferências do meio do ano times que vinham fazendo excelentes campanhas se desmancharem.

JVA - Sua principal jogada era a arrancada. Você acha que falta velocidade no futebol de hoje?

Sérgio Araújo – Você não vê mais jogador veloz no futebol hoje. São pouquíssimos. O trabalho feito em torno deles é de ganhar força, mas consequentemente, ele perde velocidade. Temos poucos jogadores velozes, e os que temos se destacam, exemplo do Bernard, do Galo, e do Lucas, do São Paulo, que já está negociado com o PSG da França. Os times do Brasil precisam voltar a investir nos atletas que jogam pelos lados do campo, mais velozes, mais ofensivos.

JVA – Você trabalhou com importantes treinadores brasileiros, e um dos que teve mais destaque foi o mineiro Telê Santana. Como foi trabalhar com ele?

Sérgio Araújo – Telê foi um dos meus melhores treinadores. Excepcional. Ele treinava muito algo que os treinadores hoje tem deixado de lado, os fundamentos. E treinava isso de forma exaustiva. Você tinha dificuldades, mas o ritmo de treino do Telê te ajudava a superar estes problemas. Por isso que os times dele tinham um aproveitamento tão bom. Outro técnico importante que trabalhei foi com o Zagallo, no Vasco da Gama, em 1990. Trabalhei também com o Procópio no Galo, com o Carlos Alberto Silva, e na minha passagem por Portugal trabalhei com o Abel Braga e com o pai do Mourinho, hoje técnico do Real Madrid.

JVA - Você vê semelhanças entre o Galo de 81 e o Galo de hoje? O que faltou ao Galo para conquistar o título Brasileiro?

Sérgio Araújo – O Atlético de 81era um time quase imbatível. O time atual é muito bom, tem jogadores como o Bernard, o Jô, o Ronaldinho, mas não tem o entrosamento que aquele time tinha. Sem contar que os jogadores têm características diferentes, não consigo traçar um paralelo.

JVA - Você se destacou por ser abusado, meio ‘ensaboado’, difícil de marcar, muito ofensivo. O que você sente ao ver uma revelação como o Bernard hoje? Lembra você?

Sérgio Araújo – Bernard é um jogador rápido, abusado também, lembra um pouco a minha forma de jogar, tem velocidade e habilidade. Vejo muito do meu futebol também no Lucas. Estava vendo o jogo do São Paulo pela semifinal da Copa Sulamericana e vi muito de mim nele. Outro que lembra o meu modo de jogar é o Neymar, que não se intimida com marcador e joga sempre para cima.

JVA - Quantos clássicos contra o Cruzeiro você já disputou, e qual mais o marcou?

Sérgio Araújo – Perdi a conta do número de clássicos, mas sempre dava sorte contra o Cruzeiro. Quando chegava na sexta, eu já ficava totalmente concentrado porque sabia que o domingo seria feliz, que tinha que fazer um grande jogo. Sempre fui atleticano, e jogar contra o Cruzeiro tinha um gosto diferente. Foram 15 anos dentro do Galo, da base ao profissional. Então jogar o clássico tinha um gosto diferente. Um dos jogos que mais me marcou foi uma final do Mineiro, Atlético contra Cruzeiro, não me recordo se foi em 1985 ou 86, mas lembro que ganhamos por 1 a 0, com gol do Paulinho Kiss.

JVA - Você teve passagens pela seleção brasileira, chegando a conquistar um Pré Olímpico de 1987, na Bolívia. Mas não encontrei referências sobre uma participação sua nas Olimpíadas de Seul em 1988.

Sérgio Araújo – A gente ganhou o Pré Olímpico, mas não pude disputar as Olimpíadas devido a uma distensão. Foi um momento complicado. Mas a experiência do Pré Olímpico valeu, fui um dos destaques do torneio, fiz gols e ajudei a seleção.

JVA – E suas participações na seleção principal?

Sérgio Araújo – Também tive boas participações com a seleção principal, chegando a marcar alguns gols.

JVA - Qual seu principal título com o Galo?

Sérgio Araújo – O hepta mineiro. As vezes as pessoas não dão tanto valor, mas para a gente que esteve a vida toda dentro do time, e era torcedor antes, é muito importante ganhar o campeonato estadual, principalmente em cima do principal rival. A vitória apertada por 1 a 0, que eu já falei antes, foi um dos títulos mais emocionantes.

JVA - Depois do Flamengo, você rodou como jogador até encerrar carreira no futebol do Espirito Santo. Qual a experiência mais marcante deste tempo?

Sérgio Araújo – Tive muitos momentos bons. Na Ponte Preta de 1997 conseguimos o acesso para a primeira divisão. Fui campeão com o Avaí, ganhei a Taça Rio com o Fluminense. Ganhei títulos em Portugal, com o Vitória de Setubal, joguei no Guarani de Campinas também. Encerrei a carreira no São Mateus, do Espírito Santo.

JVA - O que você sente que poderia ter conquistado ainda pelo Galo e não conseguiu?

Sérgio Araújo – Com certeza o título brasileiro. Eu queria ter ganhado isso pelo Galo, chegamos a quatro semifinais em cinco anos, mas nunca conseguimos chegar na final.

JVA – Você teve algumas experiências como treinador nos últimos anos, mas hoje está sem clube. Pretende continuar na profissão?

Sérgio Araújo – Claro. Eu fiz um bom trabalho no juniores do Vila Nova. Conquistamos a Copa Integração e vendemos jogadores para o Cruzeiro. E foi um trabalho de apenas seis meses. O problema é que em BH não temos oportunidades. Até no próprio Atlético, clube em que fiz história, que tenho nome, não consigo chances. Tentei, procurei as pessoas, até pessoas que trabalharam comigo, busquei a oportunidade, mas não sei o que acontece. Em São Paulo e Rio de Janeiro, os clubes dão mais valor aos seus antigos atletas, dão mais oportunidade. Não estou falando contra os profissionais de Educação Física, ou preparadores físicos que se tornam treinadores, mas a experiência, na maioria dos casos, pode valer mais do que a técnica. Experiência conta demais. Enquanto não consigo uma oportunidade, vamos trabalhando e nos preparando.

JVA - A queda para o Flamengo na Copa União, há 25 anos, ainda dói?

Sérgio Araújo – Sim. Perdemos no Rio por 1 a 0, mas tínhamos a vantagem de dois resultados iguais. Por isso, uma vitória simples em BH nos colocaria na final, pois fomos o primeiro na fase de classificação. Nossa campanha na Copa União foi excelente, sendo que ficamos em primeiro nas duas etapas. Acho que por isso entramos afoitos, correndo atrás do gol que nos classificaria para a final, mas o que aconteceu foi que tomamos dois gols de contra ataque ainda no primeiro tempo, gols do Zico e do Bebeto. No segundo tempo voltamos diferentes, e corremos atrás do empate. O Chiquinho diminuiu de pênalti. O gol nos deu força, e logo em seguida consegui fazer uma boa jogada e empatar a partida. Mas tomamos mais um gol, do Renato Gaúcho, e perdemos a vaga. Mas este campeonato teve outra questão. No último jogo da segunda etapa, se empatássemos ou perdêssemos para o Palmeiras, era o time paulista que estaria na semifinal com a gente, e não o Flamengo. Pensamos até em entrar com time misto, mas o Telê Santana não aceitou. Ele gostava de ganhar. Vencemos o Palmeiras e classificamos o Flamengo, e o resto da história o povo já conhece.

JVA – Em algumas notícias referentes a sua carreira, vi uma citação sobre a interferência de um pastor evangélico. Como foi esse episódio?

Sérgio Araújo – Isso? A tá, isso foi uma brincadeira que eu fiz, e que rendeu. Uma vez, o João Leite levou um pastor evangélico na Vila Olímpica para conhecer o time, essas coisas. Teve um momento que o pastor quis orar pelos jogadores. Ele acabou colocando a mão na minha cabeça. Quando ele colocou, eu brinquei e caí. Um momento de descontração. Dias depois a revista Placar publicou uma matéria onde eu segurava uma cruz, sobre a brincadeira, ‘Sai Satanás”.

Fonte: http://www.jornalvaledoaco.com.br

VÍDEO Por onde anda? - Sérgio Araújo - 17 de março de 2013. Sérgio Araújo atuou no Atlético nas décadas de 80 e 90, conquistando os campeonatos mineiros de 1981, 1982, 1985, 1986, 1988, 1991 e a Copa Conmebol de 1992.




 

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